A opinião de alguns dos membros do Clube de Leitura Bertrand de Braga sobre os livros que temos lido e discutido, especificamente os relacionados com a 9ª Arte.

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Apesar de desconhecer por completo o trabalho deste artista, foi desde as primeiras páginas que “Três Sombras” me impressionou.

A história começa por mostrar-nos a vida corriqueira de uma pequena família que vive isolada na sua pequena quinta, na paz e harmonia do lar. Tudo isto muda quando, uma noite, três figuras surgem no horizonte e a partir daí nunca mais se afastam muito da família. As suas presenças assustam os membros da família, que se vêem impotentes perante as mesmas. E tudo progride a partir daí.

E que história! Eu adorei! Fala da perda, da despedida, do amor e de como cada pessoa lida com estas coisas de forma bem diferente. A reacção da mãe é totalmente oposta à do pai e isso enriquece a história. Até mesmo as pessoas que eles vão conhecendo ao longo da viagem, para o bem e para o mal, e depois a parte final em que o pai conhece-se a si mesmo, aos seus medos e sentimentos e estes são exprimidos nas páginas de forma tão cruel. Está muito bom!

A única parte que não gostei particularmente no livro foi quando se revelou o vilão e saltamos de cena sem pré-aviso, de forma completamente abrupta e confusa. Depois a exposição do passado do ‘vilão’ foi um pouco extensa demais para o papel que ele teve na trama.

Mas fora isso, não tenho nada a apontar.

Por seu lado a arte é lindíssima! O artista já trabalhou para os estúdios Disney e isso percebe-se na sequência de imagens, na fluidez dos desenhos e na composição geral das páginas. Este é um álbum que merece ser lido lentamente e apreciado vinheta a vinheta. Certas partes, como a no pantanal, com o velho que salva o pai e o filho, estão incrivelmente bem conseguidas, e então a cena do naufrágio … Uau! Sem palavras! Um livro feito par ser visto e apreciado uma e outra vez.

Três Sombras é uma obra magnífica, com desenhos maravilhosos e uma história tocante que resultam num álbum que vale a pena ser lido e apreciado devagarinho.

Ana C. Nunes, capala.wordpress.com

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Podia dizer que este livro pertence a vários géneros, dada a pluralidade de cenas tão diferentes que ocupam o livro. Temos terror, temos suspense. Há piratas, há espíritos e feiticeiros. Mas no seu âmago é simples: é uma fábula. Trata-se de uma história sobre a vida e a morte, sobre a família e os medos do pai que ensombram o futuro do filho. Há uma moral no fim da viagem a que os dois se entregam, rumo a outro país. O registo é soturno mas teve momentos de muito bom humor. Adorei o mundo idílico em que personagens viviam ao abrir o livro e também aquela cena em que conhecem um feiticeiro.

Foi a arte que mais me fascinou. Dotada de uma aparente simplicidade, é feita de pretos e de brancos que aufere ao mundo uma beleza radiante. A arte é vibrante, a qual deve muito à experiência do autor em colaborar nas animações da Disney. Não eram desenhos estáticos, eles moviam-se nas vinhetas. Dava para ouvir o ruído que produziam, dava para sentir o peso do ar. O autor é mestre em encadear sequências, em estabelecer ritmos e suspenses. Cheguei ao fim do livro maravilhado com o que li e assisti.
Toda a gente tem que descobrir este livro, é daqueles livros raros que tem que estar em todas as estantes.

Como ponto negativo apenas tenho que apontar que houve um momento, muito perto do final, em que as personagens ficaram um pouco esquecidas. A história voou para longe, deu espaço a novas personagens que no fim influenciariam o destino dos protagonistas e percebo assim a opção do autor em dar mais relevo às novas personagens, mas achei que se fosse uma cena mais curta o final teria tido ainda mais impacto.

Rui Alex, jackolta.blogspot.pt

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Este livro de Cyril Pedrosa é uma reflexão bastante bem conseguida sobre a dificuldade de lidar com a morte, mais das pessoas que nos são próximos do que propriamente com a nossa. É um extenso romance gráfico em que seguimos a tentativa de um pai fazer com que o seu filho escape o inevitável.

Trata-se de um livro magnificamente ilustrado em que Pedrosa transcende as suas influências de animação (ele que foi animador para a Disney no início da sua carreira). O aspecto animação é ainda tremendamente evidente nos capítulos mais “luminosos” do livro, em que os seus desenhos estáticos têm uma dinâmica incrível e a sua linha é tão clara que quase se poderia dizer que as vinhetas eram células individuais de um filme. Mas por maior que seja a qualidade gráfica desses capítulos, o seu aspecto é ainda algo infantil e demasiado polido para se comparar com os momentos mais negros desta narrativa em que o desenho de Pedrosa se liberta, tornando-se mais solto e tremendamente inspirado.

Este é realmente um livro que se pode apreciar apenas pela arte mas o tema permite reflexões interessantes e a sua atmosfera de fantasia “leve” torna a sua dimensão metafísica mais concreta. As três sombras do título são umas figuras estranhas que perseguem ininterruptamente o filho de um casal rural que até aí tinha uma vida quase idílica, obrigando o pai a levar o filho numa viagem que os vai fazer atravessar um oceano. Mas ao longo da história vão-se tornando menos assustadoras e misteriosas, demonstrando assim a aceitação das personagens em relação a uma realidade inevitável.

Acho que o pior defeito do livro é haver demasiada dispersão na história, demasiadas pequenas personagens que não trazem verdadeiramente nada ao tema central, fazendo-nos esquecer das coisas mais essenciais deste livro. Não que o ambiente ou as personagens sejam fracas, mas não se ganha muito com a sua inclusão. Exemplificando, no segmento da viagem marítima acabamos por nos esquecer da razão para estarem num barco.

Um livro interessante e muito bonito visualmente, mas nota-se que Pedrosa ainda tinha algum caminho a fazer como argumentista quando criou Três Sombras.

Sérgio Amorim