A opinião de alguns dos membros do Clube de Leitura Bertrand de Braga sobre os livros que temos lido e discutido, especificamente os relacionados com a 9ª Arte.

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Este é um romance gráfico espanhol totalmente focado no que é envelhecer, sendo uma “pequena janela” em que experimentamos alguns dos problemas e situações que pessoas idosas enfrentam. Mas apesar de Paco Roca relatar variadíssimos tipos de situação, o verdadeiro cerne do livro trata da progressiva deterioração mental de Emílio, um banqueiro reformado atingido pela doença de Alzheimer e que acaba num lar de idosos.

O lar é onde toda a acção do livro se passa praticamente, sendo aí que se encontram as várias personagens em fim de vida que dão a Rugas o seu colorido, com as suas idiossincrasias, memórias e dramas. Este curto romance gráfico (aqui até não ficava mal o termo novela gráfica) acaba por ser bastante leve no conteúdo pois a sua amálgama de situações acaba por ser mais humorístico que outra coisa. Um humor simples que faz uso de situações bastante reconhecíveis do que é ser idoso ou de chico-espertice típicos de qualquer lado, perpetrados por Miguel, o guia inicial de Emílio (tornam-se rapidamente amigos) nesse mundo fechado que é um lar de idosos, e também o mais inconformado e oportunista dos residentes no lar aproveitando as debilidades dos mais frágeis para seu divertimento e proveito pessoal. Dito assim parece que estou a descrever um tremendo sociopata, mas a verdade é que apesar disso Miguel é retratado com simpatia e a sua relação com Emílio torna-se a de um amigo e protector.

Visualmente este é um livro que se pode dizer simples e agradável, com arte mais interessada em ser legível do que impressionante, cores quentes e um layout de página que nunca se afasta de modelos mais que testados. Onde Roca vai além dessa simplicidade é no modo como exprime a vida interior (algo fora da realidade) de muito dos residentes do lar, em que a fantasia se cruza com a realidade e o passado para alguns é sempre presente. As transições entre realidade e fantasia/memória nessas situações são muito bem conseguidas e é aí que se encontra o maior força deste livro, pois a BD permite que diferentes realidades se misturem de modo totalmente natural e instantâneo ao olhos do leitor.

Acho que onde Rugas falha principalmente é por ser um livro que não quer ser mais que algo informativo e entretido, sendo facilmente acessível a qualquer leitor. Falta ambição em Rugas ir para além de uma simples leitura agradável.

Isso nota-se principalmente na sua curta duração. Acho que as personagens principais Emílio e Miguel, principalmente por serem idosas e trazerem tanta “bagagem” do seu passado, poderiam ter sido sido muito mais desenvolvidas.Era bom para um livro que se centra tanto na relação destas personagens saber mais do seu passado, da sua vida até chegarem ao ponto em que estão. Já que Roca não vai além do estritamente necessário na definição dessas personagens e uma história que não vai além do necessário pode ser uma boa história mas dificilmente uma obra-prima.

Sérgio Amorim

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Quem folhear as primeiras páginas e imaginar do que a história se trata poderá vir a pensar que é uma história um bocado chata, com alusão à velhice e à vida num lar de terceira idade, só pode ser uma vida chata, é melhor arrumar o livro à estante. Terrível engano eu ter pensado assim, pois pensei de facto nisso, e teria perdido uma bela história.

É afinal uma história bem disposta, com humor que vive de gags e de apontamentos circunstanciais. À velhice são associados o desgaste do corpo, a senilidade e a solidão, e o autor identificou vários aspectos dessas condições e com inteligência dotou às personagens características que as fazem destacar de pessoas típicas. Características que, parecendo que não, exerçam um fascínio pelas personagens. Nesta história com diversos personagens temos uma mulher que todos os dias ocupa uma cadeira junto a uma janela do lar e todos os dias vê através da janela as paisagens luxuriosas da viagem do Expresso do Oriente e convive com os habitantes do lar que a interpelam como se fossem passageiros do comboio. Claro que podemos, numa primeira abordagem, dizer que é uma vivência triste, é uma ilusão. Mas talvez não vamos querer dizer o mesmo (eu não quis) daquele casal que vive perdido no tempo, as suas memórias de uma vida adulta dissipadas, espíritos jovens em corpos velhos que todos os dias vivem um amor adolescente. Com este casal, juntos ao fim de uma vida, houve uma cena tão singela que o tornou num dos amores à primeira vista mais bonitos que já vi.

Com a personagem com Alzheimer o autor conseguiu ir mais longe. Além dos gags humorísticos, que se inserem no tom geral da história, penso que permitiu situar o leitor no dia-a-dia com Alzheimer, através da gestão do tempo e da noção de que forma o Alzheimer define o tempo; conseguiu que eu pudesse sentir que, num ápice, desapareceu uma fatia da história, saber que os dias desapareceram mas no fundo sentir ao mesmo tempo que apenas avançamos do ontem para hoje, e a partir daí é uma sucessão de momentos confusos, o que achei particularmente bom.

São pessoas que vivem as suas vidas sem objectivos, sem responsabilidades e sobretudo sem consequências, ninguém fica com a noção do bom e do mau que lhes aconteceu muitas das vezes. Isso permitiu situações em que vale de tudo e torna quase impossível não rir nem um bocadinho, apetece rir deles, rir sem sentir complexos ou culpa. Sim, são pessoas que lidam com as agruras dos corpos envelhecidos e estamos a rir deles, mas está tudo bem, estamos num ambiente seguro, é um livro, uma história de ficção. Nesse sentido, por ter uma atitude pouco habitual ao tema, considero ser este um livro com coragem.

A arte é bonita mas não me atrai muito. É eficaz em transmitir a mensagem e as acções, e as expressões estão muito bem conseguidas. É colorida e muito jovial. Basta pensar no Tintin para ter uma noção do que esperar.

Misturando bom humor com boa inteligência, é um livro que procura encontrar o lado positivo em tudo na vida. O tema podia e devia exigir seriedade e reflexão, por isso quem procura um livro que faça sentir a mágoa e a injustiça em perder, nos últimos anos de vida, aquilo que define uma pessoa não é este o livro que deve ler.

Rui Alex, jackolta.blogspot.pt

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“Rugas” é um pequeno livro que trata de vários temas. A delicadeza e perspicácia com que fala da velhice, do abandono, da Alzheimer, é ao mesmo tempo refrescante e tocante.

Lê-se num instantinho, mas os temas de que fala tocam a todos e deixam-nos a pensar. Quem não tem um familiar idoso que já não consegue cuidar de si mesmo e precisa de ajuda? Quem não tem um desses familiares num lar? A premissa é esta, e depois somos apresentados a um conjunto de personagens bem curiosas. O Miguel, que é o companheiro de quarto do Emílio, é uma personagem especialmente caricata, ou não andasse ele a arranjar sempre esquemas para sacar dinheiro aos outros habitantes do lar.

No geral, Rugas é uma lufada de ar fresco mas daqueles que nos deixa a pensar. Não se debruça muito sobre os temas, mas apenas o suficiente para marcar. O resto fica por conta do leitor. Gostei e recomendo!

Ana C. Nunes, capala.wordpress.com