Mensalmente falarei nesta coluna sobre filmes gore e outras bizarrias que me tem passado à frente dos olhos. Isto tudo, claro, para o vosso prazer e deleite.

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Wolf Creek de Greg McLean, 2005

Este é um dos múltiplos sucedâneos do Texas Chainsaw Massacre, tendo como particularidade (única?) ser de origem australiana. Um trio de jovens descerebrados e banais, pouco mais sabemos deles para além de que gostam de festas e bebedeiras, resolve fazer uma viagem de uma ponta à outra da Austrália, encontrando no seu caminho um redneck lá do sítio com apetências bem sádicas. E esse tal redneck é mesmo o ponto alto do filme, com o actor John Jarratt a tornar o psicopata tão credível como parolo simplório ou como sádico demente. Pena que não tenha ajuda do resto do elenco, sendo as vítimas nada marcantes o que não me ajudou a realmente me envolver no filme, especialmente quando o enredo do filme dependeu tanto das coisas idiotas que essas mesmas vítimas faziam. Apesar disso é um filme decente, negro e que capta muita da crueza que fez de TCM o clássico que é. Pena é a falta de originalidade parecendo algo vazio para além das referências e de um bom vilão.

 

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Extraterrestrial de Colin Minihan, 2014

É difícil fazer um filme de extraterrestres decente quando os ditos “visitantes de outro mundo” não teriam pior aspecto num jogo de PS2. Também não ajuda quando os actores são tão bons e as personagens tão bem desenvolvidas que o filme só poderia ser melhor se esse bando de tótós fosse substituído por fantoches. O único que se aproveita é mesmo o cameo de dois actores decentes (Michael Ironside e Gil Bellows) e nem é preciso dizer que isso não chega para fazer um filme digno de ver.

 

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Misery de Rob Reiner, 1990

A premissa é excelente, pondo um escritor famoso à mercê da sua maior fã que é também uma psicótica completa. Preso a uma cama e sem possibilidade de fugir, ele é obrigado a escrever uma história ao gosto dela tendo que ceder a todos os caprichos de modo a não ser alvo de violência extrema. Como terror de Hollywood que é, este filme não é propenso aos jorros de hemoglobina , preferindo dar maior ênfase às suas personagens e ao suspense, o que neste caso é aposta ganha. Kathy Bates é verdadeiramente perturbante como vilã, sendo tão credível nos momentos de loucura como na sua fachada de mulher pacata e solitária que usa como disfarce, e aterrorizando o pobre James Caan ao longo de todo o filme e a nós também como resultado. Não é terror no sentido mais série-B do termo, mas um thriller eficaz que consegue ser genuinamente perturbante apesar de visualmente ser algo anónimo, pois a cinematografia aqui não tem outra função senão contar uma história, e assim sendo o filme é bastante bom mas longe de ser uma obra-prima do cinema horrífico.

 

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The Holy Mountain de Alejandro Jodorowsky, 1973

Alejandro Jorodowsky é doido, e digo isto com todo o respeito. Basta ver este filme para ter certeza disso. Com o objectivo de fazer um filme que seria LSD em celulóide, Jodo criou uma hora e quarenta de imagens fortes e surreais que ficam gravadas na mente dos espectadores. Porque mais do que uma história da viagem de elevação espiritual de um grupo de personagens este foi o modo que ele encontrou para apresentar uma série de delírios visuais. Momentos como estes marcam-nos a memória: pardais saem de feridas de disparo, carcaças de ovelhas crucificadas são levadas em parada por soldados com máscaras de gás, a conquista do México é encenada usando sapos e iguanas, e muitos mais momentos feitos de sexo, espiritualidade, violência e iconoclastia. Talvez essa falta de narrativa faça com que o filme se torne um bocado cansativo ao fim de mais de hora e meia mas é inegável a força das suas imagens.

 

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Nosferatu: Phantom der Nacht [Nosferatu the Vampyre] de Werner Herzog, 1979

Este é um remake de um clássico do cinema mudo expressionista e realmente, quando se trata de uma releitura passados 50 anos do original, não se pode acusar um filme de ser uma simples cópia, e sendo os responsáveis a dupla Werner Herzog e o seu actor fetiche Klaus Kinski pode-se esperar algo de bom… Mas neste caso não se passou da mediania. O estilo de Herzog não se adapta bem ao terror gótico com os seus espaços fechados e decadentes, parecendo algo desajeitado neste contexto. Isso nota-se, sem dúvida, nas cenas de espaço aberto na natureza, particularmente na deslumbrante cena antes da chegada de Jonathan Harker ao castelo (Nosferatu e Dracula são praticamente o mesmo tirando os ratos). Klaus Kinski é excelente a interpretar o estranho e perturbante conde mas infelizmente não é seguido pelo resto do elenco que parece preso a um registo muito caricatural. Jonathan Harker aqui é totalmente inexpressivo enquanto que Mina parece pedrada ao longo de todo o filme. Ou seja, é um filme que desilude tendo em conta o talento envolvido e material em que é baseado.

 

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Pontypool de Bruce McDonald, 2008

Quando se está à espera de um singelo apocalipse zombie em versão muito pobretanas (um filme de zombies inteiramente passado num estúdio de rádio é porque querem fazer render o peixe ao máximo certo?) espera-se tudo menos este filme… O trailer faz o trabalho de enganar perfeitamente no sentido já referido, mas o que temos aqui é uma adaptação literária apenas disfarçada de terror. As origens literárias estão extremamente à vista quando o verdadeiro vilão deste filme é uma infecção zombie que se alastra através da linguagem (ideia mais abstrata é impossível). A própria linguagem é o modo como o vírus é transmitido , sendo esse o ponto principal aqui – e não zombies com uma tremenda fome ou algum dilema pessoal das personagens . Facto é que a crítica aos media é central, e nisso este filme está em linha com os comentários políticos através de mortos-vivos, imagem de marca do padrinho do género George Romero. Uma abordagem nada expectável num género tão habituado a reciclar incessantemente meia-dúzia de ideias, o que é muito bom, mas por outro lado falta lhe ser algo mais visceral (nos dois sentidos da palavra!).

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