Mensalmente falarei nesta coluna sobre filmes gore e outras bizarrias que me tem passado à frente dos olhos. Isto tudo, claro, para o vosso prazer e deleite.

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Crimson Peak de Guillermo del Toro, 2015
É difícil fazer um bom filme quando se baseia todo o argumento em clichés tremendamente batidos. Ainda mais difícil é assustar alguém com fantasmas obviamente criados com CGI. Infelizmente, é isso que Del Toro tenta com Crimson Peak… Não se pode dizer que se trata de um falhanço completo, pois o filme é lindíssimo – principalmente nos cenários da mansão, muito envolvente nos detalhes da sua decadência e atmosfera pesada. E quanto às personagens, bem, elas são tremendamente cliché – a heroína é uma americana independente, filha de um ricaço que montou um império com as suas próprias mãos, os vilões são aristocratas ingleses na miséria. Felizmente, no caso dos maus da fita, o talento e empenho de Jessica Chastain e Tom Hiddleston faz com que ganhem vida com o pouco que o argumento lhes dá para trabalhar. Em conclusão, um filme agradável visualmente, mas tão assumidamente derivativo de mil filmes já feitos anteriormente, o que o torna difícil de “engolir”.

 

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The Evil Dead de Sam Raimi, 1981

Este é provavelmente o filme que melhor encarna a ideia de cinema horrorífico independente. Um realizador estreante, um punhado de dólares, atores inexperientes, um argumento minimal e uma cabana qualquer no meio do nada, para além do que o marcaria como um filme de culto: grandes doses de energia e criatividade. A primeira metade do filme é difícil de ultrapassar, os diálogos são banais, não se passa nada e nem Bruce Campbell (o nosso Ash, evidentemente) se safa especialmente. Felizmente, quando as possessões começam o filme entra em modo berserk total: para além da já infame sequência das árvores violadoras, são dezenas de minutos com Ash a ter que sobreviver aos seus amigos possuídos por demónios, resultando em cenas atrás de cenas de pancadaria, jorros de sangue e o riso histérico dos demónios. É um filme que, quando mete a quinta velocidade, não vê outra solução que senão carregar no acelerador a fundo até bater e é este frenesim desenfreado que o faz ser tão marcante. E não são os efeitos especiais baratuchos ou os cenários toscos que tiram o prazer em ver o filme, de facto até o aumentam!

 

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Das Cabinet des Dr. Caligari de Sam Wiene, 1920

Este é um dos filmes mais icónicos do Expressionismo alemão. Não duvido que metade das pessoas já tenham visto a arquitectura retorcida do filme ou as figuras macabras do Dr. Caligari e do Cesare, isto sem nunca ter visto o filme. Apesar de ser quase centenário, este filme ainda marca pela sua atmosfera de pesadelo febril. O ambiente sobrenatural e de morte é uma constante, especialmente pela já referida arquitectura tão original e teatral, feita de ângulos estranhos e sombras como se fosse resultado de um qualquer cubismo gótico. É uma experiência interessante deixar envolver-se neste filme, mesmo se por vezes o enredo pode parecer demasiado básico para espetadores modernos.

 

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Shivers de David Cronenberg, 1975

A primeira longa-metragem do grande Cronenberg não é nenhuma obra-prima mas é um passo na direção certa. Conceito: um prédio de apartamentos moderno numa ilha isolada torna-se refém de um parasita (parece um poio!) que infecta toda a gente que entra em contacto com ele, tornando-os tarados sexuais. O filme mistura a típica frieza cronenbergiana (o seu fascínio por arquitectura moderna fria e body horror bem repugnante) com um humor negro algo trash. É pena que nesta fase Cronenberg ainda não estivesse suficientemente à vontade, sendo o filme ainda algo desajeitado como filme de terror, pois nunca mete realmente medo, apenas cria desconforto e riso ocasional sem se saber se era esse o objetivo de Cronenberg. Felizmente, as coisas foram melhorando gradualmente a partir daqui…

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Rabid de David Cronenberg, 1977

E já neste segundo filme temos direito a um Cronenberg amadurecido. Desde o início do filme, vemos muito mais para além da premissa de terror, com uma cena e alguns planos é ilustrada a relação amorosa que irá ser destruída ao longo deste filme inteiro. Sim, o filme é essencialmente a história de uma vítima de acidente de mota em que é experimentado uma inovação médica que resulta em ela se tornar transmissora de um vírus que torna as suas vítimas dementes violentos. O filme só por aí já se pode considerar um sucesso, os zombies são realmente macabros, o estado de sítio na cidade é bem credível (gosto da cena em que o normal ambiente de natal num shopping acaba com um pai natal trucidado por uma metralhadora) e a Marilyn Chambers é muito convincente como “vampira sexual”. Mas o que me marcou neste segundo visionamento deste filme que faço foi mesmo ver a relação amorosa que serve como “alma” do filme, que começa por ser destroçada por um acidente de mota deixando um homem sem esperanças e cheio de sentimento de culpa, esperança essa que é reavivada para ser definitivamente destroçada de modo brutal, no fim do filme. Cronenberg deixava claro em apenas dois filmes que não é um realizador qualquer…

 

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The Pyramid de Grégory Levasseur, 2014

Este filme até tem umas ideias base interessantes: fazer terror com mitologia egípcia mas pondo de lado tudo o que seja relacionado com múmias. Mas isso de ideias toda a gente tem por mais básicas que elas sejam, mas fazer algo de bom a partir delas é outro assunto totalmente diferente. Com este filme, cada minuto que passa só serve para acumular mais situações estúpidas, comportamentos ridículos das supostas “personagens” e clichês aborrecidos. Deixo apenas uma sugestão: se querem usar deuses egípcios em filmes era interessante fazer deles mais do que monstrengos acéfalos em mau CGI…

 

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The Woman in Black de James Watkins, 2012

Este filme é, durante um hora, um belo exemplo de cinema de casa assombrada. Daniel Radcliffe é um jovem advogado viúvo que é enviado para uma terra remota amaldiçoada e para uma velha mansão que parece assombrada, havendo aí um grande historial de crianças mortas dos modos mais estranhos. É um filme visualmente muito elegante (vale a pena ver só pela casa e a sua localização que a faz ser um ilha durante metade dos dias) e com uma atmosfera de terror e luto que tão convincentemente envolve Radcliffe e a terreola onde foi parar. Os sustos e a tensão também estão lá, só que infelizmente com o passar do tempo e mais jump scares sucessivos fica a sensação cada vez mais fortalecida de que o filme não está a ir a lado nenhum. E infelizmente, o seu final pateta só vem confirmar isso mesmo e deixar a impressão de oportunidade perdida…

 

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Cannibal Apocalypse de Antonio Margheritti, 1980

Se forem ver este filme a pensar que é uma típico filme de zombie italiano, com muito gore e muito morto-vivo, estarão bem enganados… Este é mais um filme de ação em que um bando de veteranos de guerra se passam da cabeça e começam a matar pessoas à toa, e que (por acaso!) gostam de tirar uma dentada a um braço ou perna de vez em quando. Não é filme que faça especialmente sentido e com poucos atores dignos desse nome (John Saxon claro!). Nem o subtexto um pouco forçado da guerra do Vietname faz do filme especialmente a levar a sério, mas pronto… Há coisas piores…

 

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Plan 9 from Outer Space de Ed Wood, 1959

Este filme tem a ilustre reputação de ser um dos piores filmes de sempre. O mundo em geral esqueceu-se de me dizer que também é dos mais aborrecidos. É que a minha paciência para ver diálogos intermináveis e pomposos (também ridículos, mas isso nem é mau no caso), adereços de cartão (os ovnis são lindíssimos, especialmente os fios que os seguram…) e incompetência em geral tem limites. Infelizmente, esse limite não chega a uma hora e vinte minutos. Tinha curiosidade em conhecer a obra da magnífica e divertida figura retratada no filme de Tim Burton, agora esta vontade está saciada e posso seguir caminho para ver centenas de outros filmes péssimos. Yeah, alegria!!!

 

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Inseminoid de Norman J. Warren, 1981

Porque será que alguém veria um filme apenas por ele ser uma cópia barata e estúpida de Alien? Eu fiz isso, e nem assim consigo responder…

 

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Audition de Takashi Miike, 1999

Este clássico foi o filme que revelou Miike ao mundo. Um filme que, apesar do seu estatuto de filme-choque, é muito mais do que um qualquer gorefest ou torture porn e revela a maestria de Miike. Esta é a história de um viúvo de meia-idade que aproveita uma audição realizada por um amigo seu para procurar a sua mulher ideal. Assim conhece Asami, uma misteriosa e tímida rapariga que revela ser muito mais que isso. É difícil imaginar que este filme, tão esteticamente imaculado e contido apesar dos seus momentos brutais de tortura, veio do mesmo homem por trás dos muito, muito trash Visitor Q ou Happiness of the Katakuris. O enredo vai evoluindo de drama romântico sobre pessoas solitárias para abismo de terror de modo tão gradual e subtil que não se pode deixar de admirar a meticulosidade e nível do resultado final (para isso também contribui a sua fotografia imaculada). Sem dúvida um dos melhores filmes de terror dos últimos vinte anos que explora de modo interessante os temas da solidão e das relações entre as mulheres e homens.

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