Mensalmente falarei nesta coluna sobre filmes gore e outras bizarrias que me tem passado à frente dos olhos. Isto tudo, claro, para o vosso prazer e deleite.

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Ich seh, Ich seh (Goodnight Mommy) de Severin Fiala e Veronika Franz, 2014

Este pequeno filme austríaco provocou burburinho à sua volta devido a um trailer perturbante que deixou mais de um horrorhound entusiasmado, e onde eu me incluo. Pode-se dizer que felizmente, o que se adivinha do trailer está, na sua maioria, confirmado ao vê-lo. Esta é a história de dois gémeos que vêem a sua mãe chegar a casa com a cara ligada surgindo-lhes a suspeita de se tratar, afinal, de uma impostora. O ambiente é de uma tensão glaciar, ocorrendo numa casa moderna e isolada no meio do campo, estando as crianças fechadas com uma pessoa com a qual se vão identificando cada vez menos e menos. Não será por mero acaso que este filme faz lembrar o Michael Haneke, tão similar é o estilo na sua frieza amplificada pelo não recurso a música e pela lentidão na construção até à explosão de violência, perturbante e brutal. Isto seria uma receita para um dos melhores filmes de terror dos últimos tempos mas infelizmente acaba por desiludir, o que torna ainda mais frustrante tendo em conta, o quanto menospreza os espectadores na construção do que deveria ser a “grande revelação” do filme mas que é absurdamente óbvio. De qualquer modo, trata-se de um primeiro filme, o que deixa muita margem de manobra para fazerem coisas boas no futuro…

 

housebound

Housebound de Gerard Johnstone, 2014

Este pequeno filme neo-zelandês foi uma excelente surpresa. A premissa é curiosa: uma delinquente de pouca monta é obrigada a viver outra vez com
mãe e padrasto devido à sua prisão domiciliária, acabando por descobrir a possível existência de um inquilino sobrenatural. O maior trunfo de Housebound é conseguir ter cenas de simples interação do dia-a-dia que são tão interessantes como os momentos de maior tensão. As personagens são sempre muito ricas e excêntricas e o humor nunca é alarve, ajudando mesmo a nos sentirmos muito próximos da vida delas. É neste cenário, do mais real possível, que se vai introduzindo naturalmente um terror sempre ambíguo e cómico. Só se sabendo mais para o fim a sua verdadeira origem, revelada com um ritmo frenético num último quarto divertidíssimo. Só tenho que lhe apontar um excesso de voltas e reviravoltas que a certa altura deixam uma pessoa algo perdida e sem perceber que filme, afinal, se está a ver. Sem dúvida, um dos melhores filmes de terror dos últimos tempos.

 

agirl

A Girl Walks Home Alone at Night de Ana Lily Amirpour, 2014

Muito singular este filme de vampiros… Filmado num preto-e-branco a lembrar filmes de David Lynch como Eraserhead e Elephant Man, é mais uma história plena de romantismo do que terror. O universo deste filme é bastante singular, sendo ambientado numa pequena cidade americana de deserto mas em que toda a gente fala persa e apresenta tradições iranianas (até na imagem da vampira do filme coberta com um lenço islâmico negro). O filme é assim, porque é reflexo da sua jovem realizadora, que em entrevista, fala desse filme como mescla de culturas e de referências que a marcaram. Com a sua atmosfera negra e opressiva, num mundo tão singular, e personagens genuinamente interessantes, está aqui um primeiro filme deveras promissor.

 

tusk

Tusk de Kevin Smith, 2014

O quão absurdo é Tusk? Bem, basta-me enunciar a ideia base para ficarem com uma ideia: um podcaster americano em viagem de trabalho pelo Canadá é atraído para a mansão de um velho psicopata que transforma as suas vítimas em morsas. Apesar desta premissa digna de um qualquer rip-off do The Human Centipede, este filme não se centra tanto na tortura, mas sim no absurdo completo da situação. Trata-se assim de uma comédia negra com personagens ridículas, mas com diálogos divertidíssimos, o caso mais sintomático disso é o estranho diálogo entre o nosso psicopata disfarçado de simplório e Johnny Depp a fazer o mais ridículo detective possível. Apesar disso, o filme acaba por ter uma alma (muito negra, sem dúvida) e uma autêntica reflexão sobre a sua personagem, já que se diverte a torturar e a mostrar o quão má pessoa é o nosso protagonista. Adoro a lata do Kevin Smith para fazer um filme tão peculiar, tão pouco sério, tão niilista e tão afastado do terror “hollywoodiano” que se podia esperar de um filme com tal “production values”.

 

shockvalues

Shock Value de Douglas Rath, 2014

Este é mais um filme de terror de pequeno orçamento como saem centenas por ano… Para se tentar diferenciar do resto da “ralé”, Schock Value acaba por ser ambicioso muito para além do que consegue executar no ecrã. Explicando isto melhor: este é um filme com uma premissa interessante mas totalmente inverosímil (um realizador de terror série-Z faz chantagem a um serial killer, de modo a ele ser protagonista no seu próximo filme) que não passa devido ao quão mau é o resultado final em geral. Isto é, os actores são péssimos, (nota-se a tremenda falta de “à vontade” à frente das câmaras), e o argumento é tão complexo que resulta numa acumulação pura e simples de disparates e não na profundidade pretendida. E alguém me consegue explicar o que está o Malcolm McDowell a fazer aqui?

 

asthegodswill

Kamisama no iu Tori (As The Gods Will) de Takashi Miike, 2014

É raro eu ver filmes com início tão auspicioso como este. Estamos numa sala de aulas no Japão em que, sem se saber porquê, um estranho ser está a jogar um jogo infantil qualquer que está a resultar no massacre de dezenas de liceais… O problema é que o filme a partir daqui apenas nos traz versões maiores e levemente diferentes desta mesma cena, com outros jogos, o que vai tornando o filme mais e mais repetitivo. As suas personagens, teens japoneses bem clichés e muito clean, tornam-se mais e mais difíceis de aturar, apesar de explorar o passado deles. E o suposto banho de sangue que o início do filme prometia, infelizmente, também se vai tornando apenas uma miragem. Longe de ser um grande momento de Takashi Miike, é dos seus filmes com ar mais descaradamente de encomenda que já vi…

 

Ju-on

Ju-on: The Grudge de Takashi Shimizu, 2002

Fantasmas assassinos de longo cabelo e vestidos de branco são já clichés no cinema de terror, mas foram uma lufada de ar fresco quando apareceram pela primeira vez, especificamente com Ringu, ao qual se seguiram Pulse ou o filme do qual estamos a falar. Os ectoplasmas hostis passaram dos cenários já típicos de casas assombradas e subúrbios americanos para o da solidão urbana das grandes cidades japonesas, renovando inequivocamente o género e abrindo uma porta a Oriente na visão, na altura, demasiado anglocêntrica dos fanboys. Aqui o que temos, mais do que uma história, é uma sucessão de assombrações e morte sem haver demasiada preocupação com caracterizações, o que, se por um lado acaba por tornar difícil o nosso envolvimento com as personagens torna-o de um negrume sem qualquer tipo de intervalo para alívio. Não há espaço para humor ou momentos mais sentimentais, temos apenas morte e o medo e a desolação criadas por ele. Se nem todas as cenas de terror são eficazes num filme em que se acaba por notar o pequeno orçamento, e a ordem não-linear das cenas parece existir para disfarçar a falta de verdadeira história, a atmosfera no fim acaba por ser bem envolvente. Isto faz dele, talvez não um filme ao nível de outros do género, mas um filme ainda assim interessante.