A banda desenhada argentina tem vindo a ser mais regularmente publicada por cá graças ao trabalho da Levoir. O que se tem descoberto com estas edições é a imensa força e maturidade de alguma da BD deste país que, desde os anos sessenta, foram contribuindo para o crescimento da BD como forma de arte. Esta biografia é exemplo claríssimo disso.

Obra lançada poucos meses depois da morte de Che Guevara, é difícil de acreditar como foi realizado tão rapidamente, já que está longe ser um trabalho com ar “despachado” e pouco envolvido com o seu tema. É de uma sofisticação visual e narrativa muito marcada, de uma maturidade no tratamento da biografia de Che que poder-se-ia dizer inesperada para o seu tempo. Especificamente um tempo em que a vanguarda era definida pela provocação, por vezes sem mais propósito, dos Undergrounds americanos e pouco mais. (Pelo menos no Ocidente, o Japão é outra história inteiramente.)

Não se pode dizer que seja de História que trata este livro, isto é, de retratar de acontecimentos de modo apenas demonstrativo e frio. Trata-se sim do retrato de um homem, de como surgem as suas motivações, a sua empatia para com o outro e o seu idealismo. E de como esse idealismo inabalável e digno leva-o para um final trágico.

A argentina dos autores desse livro também vivia um período negro, estando sobre o jugo de uma ditadura millitar. Esta situação não deve ter deixado de guiar os autores no modo como representam Che Guevara.

Este é talvez o único caso da história em que o nepotismo foi uma boa ideia. Enrique Breccia teve aqui o seu primeiro trabalho publicado, e contribui de forma determinante com a ilustração dos últimos dias de Che Guevara. A sua arte é de um preto-e-branco ultra contrastado e tremendamente expressivo, com o negro a engolir a realidade de Che e dos poucos guerrilheiros que o seguem, até mal serem percetíveis as feições deles. As expressões dos inimigos e do povo indiferente são distorcidos até serem esgares hostis, os ramos das árvores são tortuosos como cobras, o que contribui ainda mais para o ambiente claustrofóbico. Um ambiente marcado pelo pessimismo do final já anunciado, da derrota e morte de Che. Coincidência triste: o argumentista, Héctor Oestherheld, foi ele mesmo vítima de ditaduras de direita, tendo desaparecido em 1977.

A dinâmica dos dois tipos de ilustração funciona muito bem, pois equivale às duas narrativas diferentes. Alberto Breccia ilustra em modo fast forward os acontecimentos da vida de Che, desde a infância à criação de consciência política, passando também por Cuba e a sua escolha de continuar a guerrilha em outros países.

A arte de Alberto tem as raízes tradicionais bem mais visíveis mas, como já se via em Mort Cinder, com vontade marcada de experimentar. Nunca cai no erro de tentar ilustrar desapaixonadamente a história que conta. Isto com um trabalho mais realista que Enrique, mas também com o contraste como imagem de marca, para além de não se abster do uso de colagem para obter efeitos mais abstractos.

O único defeito a nível gráfico que salta à vista é, em várias ocasiões, o desenho da cara de Che Guevara estar tão próximo das referências fotográficas e longe do estilo dos autores, que parece algo “colado” à página e não parte do desenho.

Quanto à narrativa de Oesterheld pode, às vezes, parecer omnipresente com o texto a tornar o ritmo do virar da página muito vagaroso, mas de facto isso acontece sem que se torne pesado, no sentido de parecer haver demasiado texto. Ele definitivamente sabe o que faz, tendo uma escrita muito natural e discursiva mesmo nas caixas de texto. Isto é, incluindo a expressão direta de diálogos e de pensamentos numa escrita que, esperar-se-ia para o género biográfico, ser meramente expositiva.

Comparando com Mort Cinder, acho este um trabalho superior devido à sua narrativa ser muito mais definida. O carácter episódico de Mort Cinder faz com que pareça uma coleção de contos, relacionados apenas por ter as duas mesmas personagens principais, acabando por não ter um verdadeiro objetivo final. Ao contar do princípio ao fim a vida de uma pessoa tão impactante para o século XX, A Vida de Che acaba por ser um trabalho mais envolvido com o seu tema e mais forte.

Apesar de todo o negrume da história, ainda se pode tirar alguma positividade. Che é uma figura que antes de morto já está “iconificada”, levando os seus princípios e ideais de forma resoluta e convicta, quase sem hesitações. Do mesmo modo que a sua imagem e figura o fizeram nas décadas seguintes. Pode-se dizer que este livro, tão precocemente, já quase prevê o impacto que a personagem de Che teve para gerações futuras, que seria de “algo/alguém” que não morreria assim tão facilmente.

Este livro é, sem dúvida, um exemplo de excelência no género da biografia histórica em Banda Desenhada.

Também sugerimos...