Na BD franco-belga, a antologia foi durante décadas e décadas, não um caminho possível, mas a primeira passagem obrigatória de todas as obras em BD. Pode não parecer, mas tudo passava por revistas antológicas semanais ou mensais antes de dar no que temos hoje em dia nas nossas estantes: grandes álbuns cartonados. Foram várias entre os anos 30 e os anos 80/90, desde as mais iniciais Tintin e Spirou, passando pela Pilote e Pif Gadget. Os anos 70 foram época de novas revistas e novas tendências mais maduras na BD franco-belga, com Métal Hurlant, Écho des Savannes , Fluide Glacial e (À Suivre). A última pode-se considerar o antepassado direto de Pandora, não só por serem ambos publicados pela Casterman, mas também por seguir pelo caminho dos valores seguros, e não da experimentação e da vanguarda. Nos anos 80 e 90, o modelo da pré-publicação em revista de quiosque desapareceu em França. Hoje em dia vão aparecendo, como plataformas para a criação de contos em BD, algumas publicações independentes e uma ou outra revista mais resiliente.

Pandora é, então, mais uma tentativa de recuperar este modelo da antologia periódica na qual artistas com estéticas diferentes podem encontrar uma plataforma comum para histórias mais breves e onde os leitores podem ter uma amostra rápida de diferentes artistas. Como disse anteriormente, Pandora não é propriamente uma revelação ou uma pedrada no charco. Mesmo os mais “novos”, e que não conhecia, são nomes já com várias publicações assinadas por eles. Não se pode dizer que seja uma plataforma que trará algum “rejuvenescimento” e novo impulso na nona arte, mas antes uma amostra representativa da muita variedade na nona arte.

A maioria dos autores são naturalmente franceses, mas há autores de outras partes da Europa, para além de americanos e um notório japonês, Katsuhiro Otomo. Não é de admirar que a história de abertura do livro seja sua. Autor de Akira, foi ele o maior culpado do Manga (e o Anime) começar a ter visibilidade no Ocidente a partir dos anos 90. Estando ele praticamente afastado da Banda Desenhada há muitos anos, não deixa de ser um acontecimento uma BD da sua autoria. DJ Tech Morning Attack acaba por ser muito familiar. O seu estilo visual não se altera muito do já conhecido dele. O tema também é algo déjà-vu, já em Memories falava-se de guerra levada a cabo por robots em paisagens urbanas decadentes (tema mais que actual devido aos drones), até Akira também tinha cameo de robots assassinos. A única diferença é, talvez, a localização clara da ação num país muçulmano. O tom é irónico e cruel, com os robots a debitarem verborreia como se fossem o programa da manhã de uma rádio, e isto enquanto chacinam indiscriminadamente pessoas. Pode-se dizer que este conto é mais um reencontro ameno e agradável do que um regresso em força.

Outros “velhos valores” estão também presentes. Mattotti colabora com Piersanti em duas breves histórias com carácter bem humano e com a sua tão expressiva arte, de cores vibrantes, como se caracteriza a sua obra no seu melhor.

Loustal continua com o seu estilo tão único (não me estou a lembrar de ninguém que tenha tentado fazer algo claramente influenciado por ele, mas corrijam-me se estou enganado). A calmaria e beleza das suas imagens cria uma tensão com o texto de Coatelem, sobre um início de crise, tanto criativa como sentimental, de um casal. Aqui, a arte pintada de Loustal é elegante e retro de uma maneira pouco vista em BD, a fazer lembrar um Henri Rousseau menos naïf.

O melhor conto é, provavelmente, Cartolina do italiano Alfred. Funciona extremamente bem como conto, porque, de uma situação simples, um bando de rapazes de bairro tenta lidar com a diferença de outro que aparece vestido com uma toga, conseguindo fazer adivinhar todo um mundo à volta deles, apenas com algumas páginas de diálogos e pouquíssimo enredo. É uma história densa, com personagens interessantes, e que aproveita o seu formato da melhor maneira.

Houve outros autores que não conhecia e que me surpreenderam. Florence Dupré La Tour destila brutalidade no retrato fascinante de uma estranha sociedade pré-humana em que as fêmeas dominam. Eleanor Davis narra a deterioração de uma coletividade hippie-utópica, de modo ambíguo e com um domínio das cores muito evidente. Finalmente, o trabalho de Viscogliosi, que segue o percurso incessante de uma personagem semi-felina e minimal, percurso esse que se torna algo poético no seu incessante rumo para a frente sem aparente motivo maior.

A desilusão maior é a contribuição de Blutch. Com o talento brutal dele parece um desperdício simplesmente redesenhar pranchas de outros artistas, especificamente de nomes clássicos dos 50/60 franco-belgas.

Pela negativa, tenho que falar da sátira barata de François Ravard, a retratar as peripécias sexuais de um casal de terceira idade, um exercício extremamente datado e pouco inspirado, tanto na arte como na suposta “piada”. Algo que só não estaria fora de lugar numa edição menos inspirada de Fluide Glacial de há décadas atrás. Pouco melhor é a contribuição de Bastien Vivès, muito pobre a sua história de um pintor a violar um cadáver, para além de poder ser contada em metade das páginas (mas isso é algo habitual dele, descompressão narrativa levada longe demais).

Destaque negativo também ao conto de Gilles Dal e Johan de Moor, pela boçalidade do conceito e da execução. E, finalmente, ao conto homónimo La Boîte de Pandora pela fealdade, (não dá para levar a sério cenas de batalha com tanto corpo hipertrofiado, digno de um mau comic de super-heróis), e pelo pretensiosismo evidente e vazio.

Entre estes extremos que refiro, há muito mais material aqui, que nunca deixa, pelo menos, de captar a nossa atenção. Este tipo de livros nunca costuma ser mais que mantas de retalho, não havendo tema central ou mesmo estética que unifique o todo. Mas, mesmo sendo uma antologia um pouco “ao calhas”, não deixa de ser uma leitura interessante. Poder ter o trabalho de autores tão diferentes lado-a-lado acaba em justaposições um pouco improváveis. É uma experiência algo incoerente, certamente, mas nunca aborrecida e fazendo com que me pudesse expor a autores que não conhecia de lado nenhum, e ver reaparecer nomes já na curva descendente da carreira, a maioria deles com ainda alguma coisa para dizer. E a verdade é que a fasquia está suficiente alta para satisfazer. As histórias são interessantes quanto baste, a arte é realmente excelente em muitos casos e nunca péssima nos piores. Por isso, é certamente um livro simpático que merece ser lido. Nesta altura, já vai no terceiro número, num calendário de publicação nada certinho, e esperemos que continue por muitos números. Publicações como a Pandora nunca são demais.