American Splendor foi o veículo em formato comic book de Harvey Pekar para as suas histórias do dia-a-dia. Pekar não quer saber de aventura, Drama com D maiúsculo ou grandes temas. Tudo aqui é não-ficcional, cada pequeno conto é sobre algo que se passou no trabalho, uma conversa ou um reencontro com um amigo. O quotidiano é aquilo que move Pekar a querer expressar-se e o valor desse mesmo quotidiano a sua bandeira. Esta banalidade serviu de pedrada no charco, por mais estranho que pareça, na cena da BD americana. Talvez não um com efeitos imediatos, mas um que teve repercussões no longo prazo. A BD está muitíssimo mais próxima da maneira como Pekar a via, hoje em dia, do que há 40 anos atrás.

Pode-se dizer que a insistência, em autopublicar-se durante anos e anos, com pouco ou nenhum reconhecimento, acabou por compensar. A sua visão era tão original (para os comics) que era impossível deixar todo o mundo na indiferença. Se formos a analisar, pode-se dizer que marcou a passagem da Era Underground para a Era Alternativa nos comics. Até Hollywood se deu conta: houve adaptação cinematográfica em 2004 com Paul Giamatti a fazer de Pekar.

O banal funciona para o bem e para o mal. As histórias dele podem-se tornar repetitivas e demasiado autocontemplativas. De notar que nem sempre os ilustradores conseguem dar vida a personagens e situações tão minimais. Não é o caso de Robert Crumb. Pode-se dizer da arte dele que é o ingrediente que torna os trabalhos de Pekar apelativos ao máximo. Mas Crumb não tem a mesma apetência para o discreto e o estritamente realista de Pekar. Ele é alguém que aprendeu a desenhar inspirado por bd humorística e exagerada, com Carl Barks, Mad Magazine, etc. Depois disso, ele desenvolveu o seu incrível talento a fazer bd underground, expressionista e absurda. Acaba por não ser um encontro óbvio, pensando em retrospetiva. Mas Crumb não é um artista de uma nota só (apesar do seu estilo, visto superficialmente, parecer um assinatura quase constante). O seu trabalho foi-se modificando ao longo dos anos, e certamente que American Splendor foi um impulso muito forte nessas alterações.

Nota-se ao longo deste livro, que encompassa um período de dez anos, o quanto Crumb experimentou novas abordagens. Existe uma diferença enorme entre A Fantasy de 1976 e American Splendor Assaults the Media de 1983. No primeiro, vemos versões deformadas de Crumb  e Pekar, fortes caricaturas que se confrontam como personagens de um cartoon da Fleischer. Pekar chega a aparentar-se a um símio peludo em algumas vinhetas,  enquanto Crumb é um lingrinhas ridículo.

Em Assaults The Media, vemos uma versão muito mais realista de Pekar – ainda assim, com aquela engraçada insistência de Crumb em o desenhar totalmente desgrenhado e com roupa rasgada. Aqui o ambiente é pesado e claustrofóbico, o fundo pesadamente sombreado por Crumb, até o design da página é marcadamente diferente,  sendo as vinhetas oblíquas. Todas estas características permitem captar melhor o sentimento de frustração e de falta de esperança de Pekar na sua procura de reconhecimento mais amplo. Estamos muito longe do humor cínico de A Fantasy.

O trabalho de Pekar denota, também, um fascínio pela comunicação verbal. Isto é, um prazer por ouvir histórias e opiniões da boca de outras pessoas, e de como essas interações dão cor ao seu quotidiano. Muitas destas pequenas “vinhetas” são de pessoas a falar sobre algo, sejam elas a falar com Pekar ou ele mesmo a dirigir-se diretamente ao leitor. Pekar prefere esta abordagem muitas vezes, mesmo quando podia contar a história sem o intermédio deste método. Assim, Pekar transparece ser alguém que tem real interesse nas pessoas à sua volta e no que elas dizem e pensam, e não só alguém deprimido e muito centrado em si mesmo. Ele pode aparentar ser assim, se lermos uma dose demasiado grande do seu trabalho.

Uma das histórias mais interessantes deste livro é The Harvey Pekar Name Story. Aparentemente é simples, apenas Pekar virado para o leitor a falar sobre a sua relação com o seu nome, mas ao ver a arte com mais atenção percebemos que ela não é constante. A cara de Pekar muda completamente de feições conforme o que está a dizer. Isto é, rude e quadrada quando fala sobre violência, lúgubre e envelhecida em sinal de desagrado, entre muitos outros exemplos. É algo muito adequado para um ensaio em formato BD sobre o papel do nome na criação da identidade individual.

De uma forma geral,  Crumb ilustra as histórias de modo sempre cativante. É muito mais fácil tornar apelativo o mundo de Pekar quando é Crumb a mostrá-lo. Ele consegue captar muito bem a essência das personagens. É também sempre fascinante ver como ele representa as cidades, com o seu fascínio por postes de eletricidade e a maneira opressiva como retrata edifícios escuros em segundo-plano.

O nível das histórias não é constante, infelizmente. Um dos senãos de se centrar em pequenos acontecimentos do quotidiano é ser mais difícil diferenciar o que vale a pena ser contado e a suposta “palha”. Mas, no seu todo, é um gosto ver como as abordagens de Crumb e Pekar, totalmente diferentes, se complementam. Bob and Harv’s Comics é, assim, uma obra de BD obrigatória para bedéfilos de gosto eclético, que querem ver como o quotidiano pode ser retratado de forma singular na arte sequencial.

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